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O grito dos cordeiros


 

O GRITO DOS CORDEIROS

Claudemir Oliveira*

     Quando falo de desafios que temos de enfrentar para alcançar nossos objetivos, uma das perguntas mais frequentes de meus leitores é porque o lado negativo predomina no ser humano. E o exemplo clássico que uso para explicar a Psicologia Positiva também demonstra essa tendência. Por que cometemos o grande erro de focar na nota baixa de nossos filhos e deixamos passar em branco as várias notas brilhantes? Em geral, em nível inconsciente, e com as melhores das intenções, tem a ver com o medo que sentimos de falharmos, tem muito a ver com nossa ignorância. Ao focar na nota baixa, os pais estão passando essa mensagem: “Meu filho, você tem que passar em todas as matérias com notas altas porque isso é sua obrigação e vai ser muito bom para o seu futuro”. O que os pais estão dizendo, também, numa mensagem subliminar, é o seguinte: “Meu filho, como eu não pude ser gênio para tirar notas 10 em todas as disciplinas, sinto muito, mas você agora vai assumir essa responsabilidade”. Além disso, tenho a informação de que uma notícia negativa tende a permanecer em nossas mentes 15 vezes mais forte que uma notícia boa. Talvez, aí, se explique nossa dificuldade em ligar o “interruptor” positivo.

     Outro fator tem a ver com a questão da sobrevivência. Como exemplo, quando alguém vê uma notícia de um assalto ou um acidente grave, nossa mente faz uma viagem insconsciente a esta afirmação: “poderia ser EU”. Pronto, aí o seu instinto de sobrevivência é fisgado imediatamente. O Jornalismo sensacionalista sabe disso como ninguém.

O mito da caverna

     Platão, há quase 2500 anos, narra, com maestria, o “mito da caverna” (livro VII do República), uma poderosa metáfora criada pela filosofia que nos mostra uma lição simples: nossos medos, em geral, são maiores do que parecem.

     Para Platão, transformamos sombras imaginárias em realidade. O diálogo, escrito entre 280-370 a.C., descreve  pessoas presas, desde a infância, no fundo de uma caverna, imobilizadas, obrigadas a olharem sempre a parede em frente. A realidade delas eram as sombras. Digamos que viviam na escuridão, que Platão denomina de ignorância. Se por acaso, alguém, que sabia quão bela a vida era fora da caverna, tentasse libertar uma dessas pessoas, a luminosidade do sol exuberante a deixaria quase cega já que não estava acostumada com tanta luz. Mas logo depois, já aclimatada, essa pessoa iria desvendando aos poucos a beleza da vida ali fora, como se lentamente recuperasse a visão para a vida. Finalmente, estupefata, ela se depararia com a existência de um outro mundo, mais positivo, mais lindo, totalmente oposto ao da vida que levava na caverna. Esse é o momento que saimos da ignorância (escuridão) para a sabedoria (luz). Fico pasmo como aprendemos pouco em mais de dois milênios sobre nosso lado humano. Fico estarrecido como aprendemos tanto em tecnologia nos últimos dois anos. Um equilíbrio nestas duas áreas fará o que chamo de revolução divina!    

Luminosidade humana

     Deixe-me “amarrar” o conceito de Platão à nossa realidade e, principalmente, à Psicologia Positiva. Ao ver os pais criticando os filhos por uma nota baixa é como vê-los na história de Platão. Estão na escuridão. As notas boas são como a luminosidade fora da caverna. A principio, exatamente como na metáfora, não estamos habituados à luz das notas boas, ficamos cegos e não falamos quase nada. Mas, depois que começarmos a buscar essas potencialidades, vamos recuperar a “visão” e vislumbrar a “perfeição” de nossos filhos e das pessoas. 

     No mundo corporativo, uso o mesmo conceito. Enquanto estivermos concentrados no negativo dos funcionários, estamos na escuridão. Quando começarmos a buscar o melhor deles, a luminosidade sobressai, o ambiente melhora significativamente, a produtividade aumenta e, como consequência natural, aumenta a lucratividade. Não estou filosofando; isto é ciência.

O bem vencendo o mal

     Enquanto pesquisava vários livros, cheguei ao tema dos motivos que levam o mal a vencer o bem. Em “O livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, encontrei algo que me chamou a atenção. Pergunta 932: por que, no mundo, tão amiúde, a influência dos maus sobrepuja a dos bons? Resposta: Por fraqueza destes. Os maus são intrigantes e audaciosos; os bons são tímidos; quando estes o quiserem, preponderarão.

     Usando uma analogia, é como cordeiros e lobos. No mundo animal, até se explica a voracidade pela sobrevivência “carnal”. No entanto, a grande pergunta que tenho é: por que a voracidade dos “lobos” humanos? Vou ser um pouco duro agora, mas é apenas para refletirmos. Quando “massacramos” nossas crianças por uma nota baixa e deixamos passar em branco comentários positivos sobre todas as notas altas, estamos sendo “lobos” disfarçados de cordeiros. Quando “punimos” nossos cordeirinhos, podemos transformá-los em futuros lobos. Quando os “corrigimos”, melhoramos ainda mais sua pureza, sua evolução. Você sabe a diferença entre punir e corrigir? Jesus definiu bem os dois conceitos através de uma prostituta, Maria Madalena. No mundo corporativo, líderes também precisam saber corrigir liderados. Repito, em geral, todo esse processo de punir, de focar no negativo ocorre em nível inconsciente, por pura ignorância. Só existe uma forma para a revolução: entrar em nivel de conscientização e agir imediatamente!

     Ainda sobre Psicologia Positiva, se o negativo predomina em nossa mente é porque o lado positivo está tímido, muito tímido, mas quando esse o quiser, dominará. Eu já entrei de peito aberto neste campo e, juntos, podemos dizer aos lobos que não temos mais medo. Martin Luther King disse: “o que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. Quando começarmos a gritar nossas potencialidades, espantaremos os pensamentos audaciosos do mal. Como falo de humanos, acredito que lobos são cordeiros que adoeceram gravemente. A cura, a grande revolução, por incrível que pareça, está nas mãos dos cordeiros. A arma? Amor. Utopia? Sim, se formos ignorantes. Não, se formos sábios. Basta ao silêncio dos bons!

     Para terminar, ainda usando analogias, não existem “ovelhas negras”. Existem ovelhas com uma ou outra mancha negra, mas que nossa visão, por viver nas cavernas, na escuridão, por pura ignorância, acaba pintando um quadro totalmente negro, escuro. Quando Deus criou o Céu e a Terra, havia escuridão e Ele disse: fiat lux (que a luz seja feita). Somos estrelas por natureza e nascemos para brilhar. Em cada esquina de sua alma, em cada célula de seu corpo há muita luz, muita bondade. Estamos apenas adormecidos e precisamos, urgentemente, acordar. Está mais que na hora de o bem vencer o mal. Existe alguma palavra que pode indicar o caminho? Os mais iluminados usam a mesma linguagem: caridade. Sem ela, continuaremos alimentando lobos, prova de nosso desequilíbrio social. Com ela, temos a oportunidade de iluminar o caminho dos outros. Que este texto nos inspire a por em prática os conceitos, pois sabedoria sem aplicação é ignorância, é escuridão. É viver nas cavernas de Platão. Somos pura luz e nosso combustível é a caridade. Sem combustível, não há claridade. Somente aos que buscam, existe, em abundância, esta matéria-prima em orfanatos, asilos, hospitais e em todos os lugares onde há pessoas necessitadas. Et facta est lux (e a luz foi feita)! Até março e obrigado!

     
 

 *É presidente do Seeds of Dreams Institute, jornalista, pós-graduado em Marketing (ESPM) e Comunicação (ESPM), mestrado e doutorando em Psicoterapia (EUA), com foco em Psicologia Positiva. É membro vitalício da Harvard University e referência internacional em Psicologia Positiva. Vive em Orlando desde 2000. Contato:www.seedsofdreams.org 

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Comments

  1. Querido Claudemir!!!

    Já havia conversado com você sobre esse texto maravilhoso, mas, como você sabe, eu gosto muito de deixar o comentário no blog, no respectivo texto… Gosto mesmo!!! :o) Por isso estou deixando-o aqui também!!!

    AMEI o seu texto! Quanta verdade, Claudemir!!!! Como é incrivelmente verdadeiro, que um único acontecimento negativo, consegue ofuscar, por completo, dez acontecimentos positivos… Não é incrível isso??? O ser humano tem o poder de quase “reverenciar” uma parte negativa, e, praticamente, “sufocar” várias positivas.

    A parte que você descreve como “luminosidade humana”, em especial, no mundo corporativo, me trouxe em lembrança algumas situações que passei, nos dois anos que auxiliei o recrutamento internacional da Disney aqui no Brasil… Alguns estudantes (creio que isso aconteceu três vezes, não no mesmo recrutamento, mas, em programas diferentes!), chegaram até mim para serem entrevistados e notei um ponto muito interessante neles… Comprando-os aos demais do grupo (eles eram entrevistados, geralmente, em grupos de 5 pessoas), eles se “ofuscavam” por não ter um domínio perfeito do idioma inglês, porém, no que dizia respeito ao desejo de ser um Cast Member, de ter essa grande oportunidade e se tornar “parte da magia”, os olhos deles brilhavam tanto, era tão claro o desejo de estar lá, a vontade de conseguir, de vencer, que saía deles um brilho tão intenso que, literalmente, “apagava” os demais “PHDs” no idioma. Achei que deveria dar a essas três pessoas essa grande oportunidade. Na primeira vez, quando encontrei o primeiro candidato nessa condição, aprovei a ficha e depois, enquanto jantávamos no hotel, expus a situação ao meu chefe. Ele acho interessante a minha maneira de “enxergar” a Disney nessa pessoa, e, apenas me perguntou se ele seria capaz de “sobreviver em inglês” em Orlando. Disse que seria sim, mas, que iria aguardar a entrevista final, com o pessoal do International Recruiting de Orlando. Disse a ele que não falaria nada, com que fosse o entrevistar e que, se a pessoa também enxergasse nele o que eu havia enxergado, certamente, ele seria aprovado. No dia da entrevista, fiquei aguardando, ansiosa, pela entrevista daquele menino. Quando ele deixou a sala, entrei, de imediato, peguei a ficha dele e me sentei na frente da pessoa que o havia entrevistado. Mostrei a ficha e perguntei o que ele poderia me dizer sobre aquele candidato. A resposta, verdadeiramente, encheu o meu coração de alegria, Claudemir… Ele respondeu: “Tati, os olhos dele falam um inglês perfeito, falam o idioma da Disney, e eu tenho certeza que ele será um excelente Cast Member!”. Contei o que havia acontecido, o motivo pelo qual eu o havia aprovado, e ele me elogiou bastante, dizendo que eu havia conseguido também enxergar nele, o perfil da Disney. Acompanhei os 4 meses de programa daquele menino, e foi um grande sucesso, com diversos Fanatic Cards e muitos elogios por parte de seus managers e supervisores… Como você descreve em seu texto, se eu tivesse me focado APENAS no inglês daquele menino (vamos dizer, na parte “negativa” dele…), a Disney, certamente, teria perdido um grande Cast Member naquele verão, não é mesmo!?!?

    Agora, Claudemir, a “cerejinha em cima do bolo” nesse seu texto tão maravilhoso e verdadeiro, é a questão da CARIDADE… Como está faltando CARIDADE no coração das pessoas… A caridade é a perfeição, meu amigo, ela é benigna, não folga com a injustiça, é sofredora, é a suprema excelência mesmo, o único caminho que verdadeiramente, nos aproxima de Deus… As pessoas acabam fazendo uma grande confusão quando se referem à Caridade… Acredito que poucos conheçam o que, realmente, significa a suprema excelência da caridade. Você fazer um bem, seja ele qual for, e tocar todas as trombetas possíveis para garantir a atenção de todos ao seu “feito”, não é Caridade… A caridade é aquele bem que voce faz em oculto, que, antes de se “materializar” no bem que você intenta fazer, foi gerada com muito amor dentro do seu coração, sem esperar QUALQUER forma de recompensa em troca. É um ato de amor sem qualquer tipo de interesse por trás…

    Parabéns por mais esta preciosidade, e muito obrigado, de coração, por me dar o privilégio de acompanhar suas colunas e matérias a cada mês!!!

    Mal posso esperar pelo próximo!!!

    Um beijo grande, com carinho e fique com Deus!
    Tati

    • Tati,
      Falar o que de seus comentários? Obrigado… interessante que eu quando trabalhava para a American Airlines e nos meus 15 anos de Disney, tive várias oportundiades de fazer o que você fez, ou seja, não olhar apenas uma parte do candidato e como voce bem disse, muitas vezes, o coração, os olhos valem mais que mil “PhDs”… sempre foram os “desqualificados” que surpreenderam em excelência… isso não quer dizer que ter um bonito curriculum não conta… absolutamente, mas o CV não pode ser tudo, não é mesmo?
      Enfim, obrigado pela mensagem e que continuemos encontrando ouro onde muitos líderes não conseguem enxergar!!!
      Abraços,
      Claudemir

  2. Adriana Arruda says:

    Impressionante, a cada matéria que leio aqui vou observando o quanto somos condicionados, realmente, a pensar negativamente, e o pior, não nos damos conta disso. Suas matérias tem me ajudado bastante. Obrigada !!!

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