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Você já “comeu” água?


VOCÊ JÁ “COMEU” ÁGUA? 

     Tinha meus 13 anos de idade, ao ver meus pais preocupados com as contas a pagar no fim do mês; ainda lembro como meu pai passava suas mãos enrugadas, mas suaves, por seus cabelos brancos. Ali, tomei a maior decisão de minha vida. Decidi amadurecer antes do tempo somente para conquistar o sonho de ajudá-los.

Convite para almoço

     Estabeleci que educação seria minha estratégia. Aos sábados, estudava Inglês pela manhã e Francês no período da tarde, na rua Senador Feijó, em pleno centro de São Paulo. Meu intervalo era de 30 minutos. Recordo, como se fosse hoje, meus amigos me chamando para almoçar. Sempre inventava uma desculpa dizendo que tinha de estudar ou que não tinha fome. O que meus amigos não sabiam, e até hoje não sabem, é que eu não tinha dinheiro para pagar o almoço. O sonho de ajudar meus pais me “alimentava” e dava forças para seguir adiante. Aqueles 30 minutos pareciam uma eternidade. Meu estômago doía, mas ainda teria quatro horas de aula pela frente.

Banquete de água

    Numa pequena sala de espera, taco de madeira, e um silêncio ensurdecedor, tentava encontrar forças pensando nos meus pais. Na minha frente, havia um bebedouro. Ali, enquanto esperava, silenciosamente “comia” água. Você já “comeu” água, leitor? A fome sumia um pouco, mas, infelizmente, a partir das 14 horas, o estômago ousava roncar. Tentava, no desespero de não ser humilhado, mexer a cadeira naquele piso de madeira, tentando sincronizar o barulho dela com o “grito” do estômago. Óbvio, nem sempre conseguia. Então, saía para ir ao banheiro e, na volta, “comia” mais água. De preferência, bem gelada, até sonhando que ela pudesse se tornar pedras de gelo, assim poderia comer algo sólido. Ao voltar para a sala, percebia sorrisos disfarçados. Mal sabiam que aquilo doía muito mais que a fome. Assim eram meus sábados.

Líquido e sólido

     Tenho orgulho enorme desta fase, pois era um jovem cheio de sonhos, mesmo com estômago vazio. Em vez de reclamar, eu decidi pagar o preço. A experiência de “comer” líquido no passado tem me dado banquete “sólido” hoje em dia e sou eternamente grato. Relembro com carinho a frase de Aristóteles, uma de minhas favoritas: “a educação tem raízes amargas, mas os frutos são doces”.

     A pergunta de um milhão de dólares é a seguinte: Claudemir, como você pagava os cursos se não tinha dinheiro nem para comer? A resposta parece difícil, mas por incrível que possa parecer é simples: quando se sonha, não existem obstáculos. Os sonhos bem plantados nos “alimentam” e ajudam na arte da priorização, disciplina e determinação. Todo décimo-terceiro salário, férias pagas eram investidos nesses cursos; quando já falava inglês, comecei a dar aulas no Instituto Roosevelt. Como professor, fazia curso de Francês e Espanhol sem pagar nada. Estudei Latim por vários anos, porque sonhava ser jornalista no futuro, com um dos meus maiores mestres, José Seabra, que faz anos que não o vejo e, aqui, registro minha homenagem e gratidão. Ele me cobrava o mínimo porque sabia que tinha diante de si um menino sonhador. Ah, que época inesquecível! Permita-me, leitor, voltar um pouquinho no tempo. Rua João Boemer, 864, casa 2, no Bresser. Eu vivia, na época, na Vila Cachoeirinha. Sabe que dia estudava Latim? Domingo! Pegava dois ônibus, mais metrô até o Bresser. Caminhava mais uns trinta minutos, onde era recebido pela doçura da mãe do meu mestre. Não sai de minha memória o seu sorriso, seus olhos, seu rostinho “pequeno” e sua grande bondade. As aulas eram, geralmente, das oito da manhã até o meio-dia, mas sempre se extendiam, às vezes, até metade das tardes. E lá, aquela mãe cuidava de dois filhos. Sim, ela me tratava como filho. Os bolinhos e o café com leite vinham com gosto de “mãe”, mas o jeitinho de ela olhar nos meus olhos era mais doce que o primeiro pirulito na boca de uma criança. Era algo angelical. Era algo divino.    

     Estas experiências, quando era tão jovem, me fazem lembrar algumas frases. A primeira é de Adélia Prado: “Não quero garfo; não quero queijo. Quero a fome.” O que adianta ter garfo e queijo sem fome? Nada, não é mesmo? Pois bem, eu tinha “fome” de ajudar meus pais. A outra frase é de Alejandro Spangenberg: “O fogo do sofrimento acende a luz da consciência”.

“Câmera, luz, ação”

     O psicólogo Viktor Frankl foi outro ser magnífico nesta vida. Sobreviveu o holocausto, perdeu parte de sua família e criou a logoterapia, que se baseia no significado que tiramos da vida. Ele diz que, mesmo nas piores circunstâncias, ainda temos a última palavra. A dele seria algo parecido com “a vida é bela”, tema de filme que trata do mesmo assunto. Na ficção, Roberto Benigni, enquanto “sangra” psicologicamente, precisa criar um jogo para “brincar” com seu filho no meio daquele inferno. Na vida real, a mente de Viktor Frankl era pura luz enquanto o mundo estava completamente escuro com o sofrimento humano. Todos nós temos um pouco de ficção e de realidade, mas quando o diretor da vida diz, “câmera, luz, ação”, esta última palavra determina para onde o roteiro vai, e, sob minha direção, irá sempre ser um final feliz, independendo das circunstâncias. Sabe por que? Porque todo final deve ser um começo de um novo, belo e melhor filme. Como diretores cinematográficos da vida, os poucos erros servem de enredos para muitos “Oscars” do futuro. Neste seu filme, você é o ator principal e, o melhor, você é o seu próprio diretor. Ouse, meu amigo, no palco da vida. Supere suas próprias expectativas. Eis o que chamo de evolução humana, baseada na correção de nossos roteiros e sem punição de roteiros passados.

     Em resumo, as dificuldades nos mostram a realidade nua e crua e, por isso, o processo de conscientização traz luz, traz sabor à experiência vivida. Ter “comido” água me fez muito, muito melhor.

Um céu dourado

      Como nos últimos cinco meses viajei, muitas vezes,  ao Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, trouxe a sabedoria de um povo acolhedor. Trouxe também a sabedoria da natureza, onde os ipês-amarelos florescem no inverno. Nos momentos mais difíceis da vida, podemos residir dentro da luz áurea de uma árvore que faz seu próprio tapete com suas folhas douradas. De baixo, olhando para cima, no meio do amarelo, se notam araras azuis que se confundem com o azul do céu, nas poucas brechas deixadas pelas folhas. E para alegrar ainda mais o cenário, aparecem tucanos com bicos amarelos e quase imperceptíveis pela confusão de cores. Nas árvores vizinhas, cheias de frutas, passarinhos comem e cantam celebrando a beleza da vida.   

     Feliz natal e que seus próximos anos sejam banquetes repletos de saúde, alegria, paz e muitos sonhos semeados, regados e colhidos.  

 

*É presidente do Seeds of Dreams Institute, jornalista, pós-graduado em Marketing (ESPM) e Comunicação (ESPM), mestrado e doutorando em Psicoterapia (EUA), com foco em Psicologia Positiva. É membro vitalício da Harvard University e referência internacional em Psicologia Positiva. Vive em Orlando desde 2000. Contato:www.seedsofdreams.org 

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Comments

  1. Meu querido Claudemir…
    Esse texto é de um enriquecimento para o ser humano, que não se pode medir…
    Uma pessoa que passou o que você passou, enfrentou muitas adversidades, dificuldades, angústias e opressões, e chegou onde você chegou, verdadeiramente, é uma “alavanca” na vida de muitos que talvez precisem de um “empurrãozinho” e um grande despertamento para tantos outros que dormem com olhos abertos, esperando que os céus se abram e de lá, Deus jogue diretamente nos seus braços tudo aquilo que desejam.
    O grande combustível para toda essa fibra e força que você teve, deve-se à criação e educação maravilhosas que você teve, fundadas em princípios e valores corretos, que se enraizaram dentro de você, através dos grandes exemplos deixados por seus pais!
    Uma pessoa que sonhou, lutou, se esforçou e venceu! Aí está a prova de que situação financeira difícil e simplicidade, não são sinônimos de marginalidade, criminalidade ou caminhos tortuosos e errados!
    Eu me sinto muito honrada por ter tido o privilégio de conhecer você pessoalmente, participar de algumas das suas inesquecíveis palestras, e hoje, ter o imenso privilégio de continuar aprendendo através dos seus textos, do seu trabalho e das suas enriquecedoras experiências aqui compartilhadas!
    Que Deus, na Sua infinita bondade, sabedoria e misericórdia, continue prosperando os seus caminhos cada dia mais, para que muitos ainda tenham essa preciosa oportunidade de aprender e mudar!
    Que 2011 seja uma ano de grande paz, saúde e prosperidade na sua vida!
    Um grande beijo, com carinho para você e sua família…
    Tati

    • Tati,
      Ja respondi para o seu próprio e-mail, pois adorei cada palavra que você colocou acima. Espero que goste da minha resposta que enviei para seu e-mail.
      Abraços e muito, muito obrigado!
      Claudemir

  2. teste

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