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Somos todos “ossos brancos”


Claudemir Oliveira*

SOMOS TODOS “OSSOS BRANCOS” 

    Começo o ano de 2010 com uma história que marcou minha vida para sempre. Nos últimos anos, fiz psicoterapia com crianças, adolescentes, adultos, casais, famílias e grupos. O que conto a seguir apenas comprova tudo o que sonhei em aprender no meu doutorado. Uma viagem fascinante na tentativa de entender o ser humano. Todo o meu investimento já estaria pago somente com essa única experiência. Então, do ponto de vista “humano-financeiro”, já sou bilionário há muito tempo.

 “Ossos Brancos”

     Um menino americano de 9 anos veio a minha clínica porque estava tendo muitos problemas na escola. Vou usar um nome fictício, naturalmente, para proteção de meu paciente. “John” estava muito agressivo, nervoso e já não se concentrava mais nas aulas. Usei um pouco de minha especialização em ludoterapia (terapia através de jogos, brinquedos) para entender o meu novo amigo John. Não demorou muito a fazermos amizade e desenvolvermos confiança. A medida que conversávamos, recebia mais detalhes de John. Ele me contava que, na sala de aula, os  meninos zombavam dele e faziam comentários maldosos. Também, confidenciou-me que, durante os intervalos, sempre ficava fora das brincadeiras e se sentia sozinho, completamente isolado. Ele queria interagir mais com seus amigos. Ele queria fazer amizade, queria brincar também. Nao era aceito!

“O que você quer ser?”

     Depois de 45 minutos, quando a sessão já estava bem próxima de acabar, já me sentia bem a vontade com ele. Decidi, então, fazer uma pergunta que geralmente fazemos para as crianças.

–   John, agora que somos amigos, posso fazer uma pergunta?

–   Sim

–   Quando você crescer, o que você quer ser?

     John ficou em silêncio alguns segundos que mais pareciam uma eternidade. Olhou-me nos olhos e, entre lágrimas, balbuciou:

–   Eu queria ser branco!

     Eu não sabia o que falar, o que fazer. Eu o abracei por alguns segundos e depois, ainda abaixado, olhei nos olhos dele e disse:

–   Sabe, John, eu gosto muito de você exatamente do seu jeito. Não mude nada! Eu lamento muito pelo que estão fazendo com você.  Eles “não” sabem o que fazem. Todos os ossos são e serão brancos! Sei que você não vai entender ainda o conceito de “ossos brancos”, mas uma dia você entenderá. 

     Continuei falando com ele por mais uns dez minutos. Brincamos mais um pouquinho e quando senti que ele se sentia bem, perguntei se estava pronto para voltar para casa e para a escola. Com um sorriso, disse que sim, me abraçou e se foi. Nunca mais me esqueci dele. Nunca mais me esquecerei.

“O resto que nos resta”

     As palavras “ossos brancos” realmente vieram sem muito pensar, mas a idéia era (é) clara. Eu queria dizer para o nosso pequeno John que no final dos tempos, quando a poeira do sofrimento passar, quando tudo acabar, lá, embaixo da terra, debaixo de 7 palmos, quando os vermes comerem o resto que nos resta, todos os ossos serão brancos. Ali, brancos e negros, homens e mulheres, reis e mendigos não tem (terão) diferenças. Todos temos ossos brancos.

     A história de nosso John não pode ser repetida. Por décadas, por séculos, nossa sociedade continua repetindo erros estúpidos como esse. Para o John, para todos os negros, fica aqui o meu respeito e meu sonho, assim como o de Luther King, de um mundo melhor e mais justo, mais igual. Para o John, como branco, eu me envergonho do que fizemos para os negros durante tantas gerações. O pequeno John não merece sofrer conseqüências do que fizemos lá atrás. Sabemos que errar é humano, mas repetir é burrice. Repetir inúmeras vezes é desumano. Para as atrocidades que tenho visto na minha curta passagem por esse planeta, somente enxergo uma frase que talvez explique: “Senhor, perdoai-vos porque eles não sabem o que fazem” ou também o velho ditado de que o caminho para o inferno está cheio de boas intenções. Neste caminho, prezados leitores, NÃO ponho nenhuma pedrinha, porque quero outro caminho para mim e para todos. Precisamos tomar consciência do que estamos fazendo se quisermos mudar alguma coisa. A sensação que tenho é que estamos passando pela vida “inconscientemente” sem notar um palmo além do nosso nariz, pelo nosso egoísmo, individualismo. Se somos chamados de seres racionais, onde se encontra esse ser racional? Se somos chamados de seres HUMANOS, onde os encontramos? Eu, muitas vezes, me pergunto: e se fôssemos considerados irracionais?  Provavelmente, não estariamos aqui para contar a história! Repito: sem uma conscientização “consciente” do mundo, não temos como mudar! O ser humano e racional não está honrando essa denominaçao. Claudemir, e onde está seu discurso de psicologia positiva? Não seria uma incoerência o que você acaba de escrever? Atento leitor, sim, uma incoerência, mas “consciente”, pois aqui, estou querendo melhorar o nosso pequeno lado negativo já que se trata de uma causa nobre e o John merece!

Pedrinha por pedrinha

     Que em 2010 e todos os séculos adiante, meu sonho seja construído tijolinho por tijolinho por cada um de nós. Eu acredito na minha simples filosofia que diz que o homem que move montanhas é aquele que move pedrinha por pedrinha. Essa coluna é uma das minhas pequenas pedrinhas para a sociedade. Isso me faz lembrar Madre Teresa de Calcutá que já citei no passado. Ela dizia que o ser humano não faz mais coisas boas porque tem a sensação de que o que faz é muito pouco, que não vale a pena, que não vai ser notado, etc. É como uma gota de água no oceano. Ela, então, dizia que jamais poderíamos nos esquecer que o oceano não seria o oceano sem a nossa pequena gota. O ponto dela é super simples: devemos pensar no todo, ou seja, são milhões de “gotinhas” que fazem o oceano. O pouco feito por muitos pode transformar o mundo de forma mais rápida que imaginamos.

Os cinco sentidos

     Que nossos olhos “não” enxerguem “cores” nas pessoas; que nossos ouvidos “não” escutem sotaques; que nossos braços se toquem e se abracem de forma afetuosa; que nossos coraçoes consigam sentir a dor do John (e que façamos algo urgentemente) e, finalmente, que chegue até nós o cheiro, o perfume das flores de um belo jardim onde crianças de todas as “cores”, religiões, diferentes classes sociais e países brincam sem nenhum tipo de discriminação. Que a memória dos adultos seja apagada para recomecarmos do zero! Precisamos fazer uma melhor lição de casa. Aqui, meu argumento: quem são essas crianças que estão maltratando John? Por que elas estão fazendo isso? Quem são os responsáveis por essas atitudes? Onde e com quem elas aprenderam isso? E, talvez, a pergunta mais importante: de quem vem a definiçao de branco ou negro? Pense, reflita e mude! Lembre-se, também, que uso generalizações e que devido a espaço seria impossível entrar em todos os detalhes do assunto.

     Ainda há tempo para uma grande virada do jogo. Sempre há tempo quando decidimos mudar e AGIR! Para reflexão: a beleza de um jardim está na diversidade e nas diferentes cores das flores.  Vamos brincar de vida? Feliz 2010 e uma vida colorida para todos!

* É jornalista, pós-graduado em Marketing (ESPM) e Comunicação (ESPM), mestrado em Psicoterapia(Stetson University) e doutorando (Barry University) na mesma área com foco em Psicologia Positiva. Claudemir atende no Kratochvil Health Kare e The Welness Institute. Por favor, envie sua mensagem para seeds@seedsofdreams.org

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Comments

  1. Meu querido Claudemir…

    Imagino o quanto a história de vida do pequeno “John” tocou a sua alma e marcou a sua vida para sempre…

    É lamentável, para não dizer, desprezível, que a discriminação, a acepção de pessoas continue sendo tão forte e presente nos nossos dias, mesmo depois de conhecermos profundamente, quanto o homem errou e manchou a história do ser humano, com sangue, torturas e crueldades com os negros. Aqui no Brasil, uma lei foi assinada, “libertando” milhares de escravos, em 13 de Maio de 1889, mas, até hoje, depois de mais de 100 anos, eles continuam “cativos” pelo preconceito, pela acepção, pela discriminação vergonhosa… E é absurdamente incrível como a discriminação não se restringe apenas à raça negra… Se pararmos para fazer uma curta e rápida análise, chega a impressionar, pelo lado mais negativo possível, como a discriminação está impregnada no mundo em que vivemos… Aqui no Brasil, por exemplo, quando nos dirigimos a um hospital público, do governo, lê-se a seguinte mensagem em cartazes espalhados por cada metro quadrado do lugar: “desrespeitar funcionário público é crime”. Porém, como essas pessoas que exigem, com amparo da lei, respeito, tratam as pessoas que para lá se dirigem, como única opção de encontrar socorro?? Com falta de respeito, falta de amor e, em alguns casos, com requinte de crueldade… E falo isso, meu amigo, com total conhecimento de causa, pois passei por 17 cirurgias ao longo da minha vida, sendo a maioria esmagadora delas, nesse tipo de hospital. A lei, no caso, completamente inflexível, ampara apenas a parte considerada “forte”. Não vou me prolongar aqui, porque, depois de 9 anos, acredite, poderia escrever um livro inteirinho, com centenas de páginas, relatando as aberrações e atrocidades que vi acontecer, em termos de discriminação e preconceito, nos hospitais públicos do governo…

    Incrível pensar que o ser humano evoluiu tanto, a tecnologia colocou o homem num nível de conhecimento e aprendizado tão fantástico, estivemos na lua, exploramos o espaço, os oceanos, transformamos muita coisa e ainda não conseguimos vencer o preconceito, não quisemos aprender a conviver com as diferenças de raças, etnias, condição social… Ao invés do homem usar todo esse aprendizado e conhecimento em benefício da humanidade, ele se ensoberbeceu, tornou-se arrogante, “senhor de si” e esqueceu-se, completamente, que ele próprio nada criou… Deus formou o mundo e tudo o que há nele, e, na pessoa do Seu filho, nessa terra, não fez outra coisa além de ensinar a mansidão, o amor ao próximo, a fraternidade, a humildade e pregar a caridade, ao contrário do homem que, a cada “descoberta” (previamente criada e já deixada no mundo por Deus!!!), coloca-se num pedestal elevadíssimo e alimentando seu ego com falsas glórias e grandes dosagens de arrogância.

    Devemos, realmente, continuar nos esforçando, fazendo a nossa parte, trabalhando incessantemente pela justiça, pelo bem, pelo amor, praticando a caridade sem jamais esmorecer ou desanimar, pois onde há vontade há um caminho, mas, onde há boa vontade, amor e dedicação, há MUITOS caminhos!

    Um forte abraço, com carinho e obrigado por dividir mais esta preciosidade com todos nós!

    Tati

    • Tati,
      Como te disse no outro comentário, escrevi no seu email pessoal sobre tudo o que você falou… quero apenas registrar meu agradecimento por seu tempo!
      Claudemir

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